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Espalhadoras de livros

A Freguesia do Livro tem como principal objetivo formar leitores, incentivando a leitura, mas, principalmente, o gosto pela leitura. Recebe e organiza livros doados e os compartilha com crianças, jovens e adultos em pontos de leitura em Curitiba e lugares que consegue alcançar, fazendo os livros circularem e incentivando a leitura para todos em todos os lugares. Sem fichas ou cobranças – livros livres. Também colabora na criação e manutenção de bibliotecas comunitárias. Investe no poder transformador da leitura e em sua democratização, acreditando na eterna possibilidade de criar leitores, sejam eles crianças, jovens ou adultos – todas as pessoas, todas as idades, todas as classes sociais. Através do contato facilitado e valorização do livro, quer levar à descoberta das oportunidades atreladas ao ato de ler. Nosso desafio é mostrar que a leitura é inclusiva, que proporciona capacidades intelectuais e pontos de vista consistentes, desenvolvendo sua formação como cidadão: um leitor pleno faz escolhas, sabe o que quer.

Duas fonoaudiólogas e uma administradora, chegando naquele momento da vida em que é bom desacelerar, viajar. No nosso caso, porém, três amigas desde a adolescência, foi a hora de criar algo novo. Viramos, então, espalhadoras de livros. Inicialmente, a intenção era um impacto pequeno, no reduzido entorno da casa de cada uma. Assim, simples – deixar que outras pessoas tivessem acesso aos livros que nós e alguns amigos tínhamos parados em casa. A única coisa que não deu certo nessa ideia é que ela não ficou pequena, cresce a cada dia, que bom.

A Freguesia do Livro começou com poucas horas de nossos dias dedicadas a receber os livros doados – limpar, classificar e procurar um espaço para deixá-los livres e disponíveis em caixas de frutas que nós mesmas restaurávamos. Logo tínhamos uma caixa cheia de livros livres num salão de beleza aqui, numa frutaria ali, num bar acolá. Mas foi o “também quero” que nos surpreendeu: em um mundo em que se questiona o futuro da leitura, do interesse pelos livros como hoje os conhecemos, a resposta foi diferente: o leitor estava interessado. O que ele precisava era de acesso aos livros.

Nosso movimento literário, que não se imaginou grande desde o início, cresceu rápido – quem poderia prever que tantas pessoas queriam livros? No percurso, nós três, fundadoras, voluntárias e inexperientes, precisamos de ajuda para organizar aquilo que pretendia ser um passatempo e foi assumindo jeito de negócio. Selecionada pelo Projeto Legado, a Freguesia do Livro recebeu capacitação em empreendedorismo e saímos desse aprendizado mais fortes, direcionadas e fazendo parte de uma rede de iniciativas sociais de Curitiba e região. Rede essa, fundamental na construção de ações que fazem diferenças por aí. Que permitem que você conviva e compartilhe soluções com outras iniciativas que viram grande fonte de inspiração. Nessa experiência de formação conhecemos gente que ouve histórias de idosos em asilos e depois vai contá-las para crianças em hospitais; grupos que dão abrigo, profissão e sentido a garotos que pensavam ter poucas oportunidades, ou que dão futuro a meninos e meninas através do tênis e do futebol. Outros que fazem jovens acordarem para o mundo e lutarem por seus direitos. Pessoas que protegem florestas, que lutam pela segurança no mar, pela valorização da vida.

Crescemos. A Freguesia do Livro atualmente conta com cerca de 200 Pontos de Leitura constituídos nos mais diversos lugares: escolas, bares, cafés, restaurantes, salões de beleza, barbearias, frutarias, refeitórios de empresas, lojas, salas de espera de clínicas, mercearias de bairros, unidades de prevenção de liberdade, instituições de contra-turno, escolas, asilos e tantos outros. Realiza regularmente reposições de acervos nos pontos de leitura e distribuições de livros técnicos, recebidos em doação, em universidades e cursos de vestibular. Produz, apoia, participa e divulga eventos culturais na área da literatura em Curitiba.

Além de termos já disponibilizado um número que alcança a cifra dos milhares de livros, disseminamos certas ideias, fisgando os incautos que não sabem o que fazer com os livros que têm parados em casa, com os itens que já sobram nos armários, com as horas que poderiam dedicar a uma causa qualquer. Promovemos os conceitos que fundamentam o movimento: falamos de consumo consciente, de pensar antes de comprar, do desapego e compartilhamento de livros, da doação de livros em bom estado, do acesso facilitado à literatura, da livre circulação literária, do reuso de livros e reciclagem responsável, e sobre nosso pilar fundamental: a constituição de agentes de leitura, ou seja, fazer com que leitores percebam que podem e devem disseminar o gosto pela leitura e os livros lidos.

Nós escolhemos democratizar a leitura. Porque acreditamos no poder transformador que ela tem. O leitor entende melhor o mundo porque a partir da leitura ele pode desenvolver a compreensão das outras pessoas, melhorando a empatia; pode desenvolver um pensamento mais livre por conseguir entender outros pontos de vista, assim como aprimorar seu senso crítico, avaliando com maior entendimento o que ocorre ao seu redor.

Acreditamos, claramente, no trabalho voluntário, no arregaçar as mangas e fazer o que se pode. É um jeito de retribuir a sorte que se tem. E retribuir é se conscientizar das oportunidades que família, professores, amigos e um contexto favorável proporcionam e de devolver para pessoas ou comunidade, o privilégio que, não se sabe bem por que, alguns têm e tantos não. E acreditamos que, se cada um dedicasse uma parte, por pequena que fosse, de sua agenda e de suas habilidades a quem pode se beneficiar delas, o mundo seria um lugar melhor. Ao menos o mundo que seu braço alcança.

Josiane Mayr Bibas

17/04/2017|Rede|