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Empoderamento comunitário como forma de combate à desigualdade e à violência

“O que acham se delirarmos um pouquinho? O que acham se fixarmos nossos olhos mais além da infâmia, para imaginarmos outro mundo possível? ” (O direito a sonhar– Eduardo Galeano)

Partindo de um sonho semelhante ao da frase acima citada, um grupo idealizou um projeto e com muito trabalho, empenho e determinação iniciaram no ano de 2000 o Projeção Projeto Jovens Ação, como contra turno escolar. Dentre as pessoas envolvidas neste projeto inicial estavam as escolas, igrejas e algumas lideranças da comunidade que se mostravam preocupados com os adolescentes em situação de vulnerabilidade social da comunidade de Guarapuava. Hoje o projeto tornou-se Serviço de Convivência e Fortalecimento de Vínculos, vinculado à assistência social. Passaram pelo Projeção, nestes 16 anos de trabalho, em torno de 4.500 crianças e adolescentes. Atualmente atende mais de 300 crianças e adolescentes por ano.

O Projeção atua num contexto de mais de 10 mil moradores e atende crianças e adolescentes a partir do 5º ano escolar em vulnerabilidade social, econômica e familiar, no Distrito de Entre Rios em Guarapuava – PR. Para contextualizar um pouco o leitor sobre o histórico e características desta comunidade, vale dizer que, por se tratar de uma região com predominância na atividade agropecuária, muitos dos residentes da comunidade vieram para a região em busca de trabalho nas fazendas, no reflorestamento e em uma cooperativa, mas pela baixa escolaridade acabaram permanecendo no mercado informal, desempregados, trabalhando por pequenos valores ou vivendo de “bicos”, tornando-se assim um bolsão de pobreza e reduto de uso de drogas e de criminalidade.

Com o objetivo de oferecer um espaço de aprendizado e crescimento, o atendimento no Projeção se dá por meio de oficinas de esportes, artesanatos, instrumentos musicais, informática, jogos, brincadeiras, integração, palestras, lazer, cursos, atendimento psicológico e alimentação. O Projeção trabalha junto às famílias dos alunos e mulheres da comunidade acreditando nas capacidades e potencialidades de cada indivíduo.

A realidade em que o Projeção atua, é marcada por grandes contrates sociais e por uma visão simplista de que quem se esforça obtém êxito e sucesso e melhora suas condições de vida. Essa visão produz uma desigualdade cada vez maior e mais visível, porque as condições de vida e de oportunidades são diferentes para pessoas em vulnerabilidade social e econômica. O Projeção acredita que só criar oportunidades não são suficientes para que essas pessoas sejam empoderadas, mas que somente a equidade de oportunidades farão do mundo um lugar menos injusto e mais igualitário.

Além desse contexto, a comunidade onde o Projeção atua tem altos índices de violência em todas as suas formas, mas, principalmente violência sexual contra crianças e adolescentes, trabalho infantil e violência contra as mulheres. Outra característica são as famílias mono parentais chefiadas por mulheres. Também fazem parte deste contexto a privação de direitos básicos garantidos por lei, principalmente o saneamento e a moradia. O atendimento dos órgãos públicos limita-se ao CRAS volante um dia e meio por semana e ao posto de saúde.

Nessa perspectiva, o Projeção, a partir de uma série de capacitações do Projeto Legado, passou a ter o impulso para que a mudança aconteça, e intensificou ainda mais o foco no empoderamento comunitário sob a perspectiva da garantia de direitos, redução da violência e da vulnerabilidade.

Buscando melhorar as condições da comunidade local e a articulação comunitária, o Projeção em 2017 vai intensificar as suas atividades voltadas para o empoderamento como desenvolvedor e potencializador das capacidades dos indivíduos e da comunidade local. Para isso oferecerá atividades para crianças, adolescentes, lideranças, professores das escolas e pais de alunos, com foco para que a mobilização comunitária aconteça.

É preciso desmistificar a naturalização da violência e capacitar as pessoas para que sejam capazes de identificar a violação de direitos, denunciar, mobilizar-se, assumindo o papel de protagonistas dentro da comunidade onde vivem. O empoderamento das pessoas e da comunidade faz-se necessário para romper com a violência e a garantir direitos.

“Se você me der um peixe, você terá me alimentado por um dia. Se você me ensinar a pescar, então você terá me alimentado até que o rio esteja contaminado ou sua margem tenha sido ocupada pelo desenvolvimento. Mas se você me ensinar a organizar, então, qualquer que seja o desafio, eu poderei me unir a meus pares e, juntos, inventaremos nossa própria solução” Barefootguide (Coletivo Pés Descalços)

Para conhecer mais do trabalho acesse: abser.org.br

Méris Gutjahr pedagoga, especialista em Dependência Química e Comunidade Terapêutica e Mestra em Teologia com ênfase em Práticas Sociais e Cuidado. Atua como diretora do Projeção desde 2012.

Karina Ritter Dantas Stoetzer  psicóloga especialista em Terapia Individual e Familiar Sistêmica e atua no Projeção desde 2013.

13/03/2017|Rede|