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Encontro oferece debate e imersão nos desafios e sofrimentos da mulher refugiada

Em noite marcada por relatos emocionantes, roda de conversa “Sou Mulher. Sou Humana. Em qualquer lugar” refletiu sobre as particularidades de mulheres nessa condição

Já se imaginou na pele de alguém que, para salvar a própria vida, ou a de seus familiares, precisa abandonar tudo e enfrentar fome, perseguições, violações e preconceitos? Essa é uma realidade enfrentada diariamente por milhares refugiados no mundo. No contexto feminino, o cenário ainda inclui situações como violência de gênero e abusos sexuais. Para promover a reflexão sobre esse triste fato, foi promovida na noite desta quarta-feira, 28, no Legado Socialworking, a roda de conversa “Sou Mulher. Sou Humana. Em qualquer lugar”.

O evento foi organizado pela fundadora do Projeto Linyon, Marcela Milano, em parceria com a coordenadora de eventos da ONG Global Hope Network International, Paula Fiuza, a jornalista com atuação em Direitos Humanos, Michele Bravos, e a OSCIP Adus, representada pela coordenadora Martha Toledo e pela voluntária Amanda Stinghen. Sua marca foi a sensibilidade de quem vê o tema como uma discussão urgente para a promoção dos direitos humanitários femininos, com a proposta de refletir e fazer-se presente, afirmando que nos importamos com as particularidades de mulheres nessa condição. A noite ainda foi embalada pela música de Lucia e Myria, da banda Alma Síria.

“Poucas pessoas estão falando sobre as mulheres refugiadas. Estar nessas condições já é muito difícil para qualquer um, porém uma mulher enfrenta desafios ainda maiores, quando por questões culturais, são impedidas de tomar decisões por conta própria sem uma presença masculina, quando são obrigadas a usar seu corpo como moeda de troca para poder comer ou atravessar uma fronteira ou se veem em situações de extrema privação para si própria e seus filhos. Precisamos trazer luz para esse assunto e buscar meios de proteger essas mulheres que já estão fugindo para sobreviver”, afirmou Marcela Milano que, à frente da Linyon, oferece oportunidades de qualificação para o mercado de trabalho a migrantes e refugiados.

A experiência do refúgio

A roda de conversa proporcionou uma verdadeira imersão em histórias de mulheres que precisaram tirar de si a força necessária para enfrentar medo, dor e constrangimentos em busca de uma nova vida. Quem esteve no encontro pode ouvir, por exemplo, o relato da jovem venezuelana Luisana Méndez Toro, que vive no Brasil há dez meses como solicitante de refúgio. “Decidir ir para outro país não é fácil, é um grande desafio. Começar de zero, sem conhecer ninguém e sem saber a língua do país que acolhe, não é fácil.  Sempre existe um olhar diferente para quem é estranho ou estrangeiro. Cada dia é uma luta, especialmente para as mulheres porque, normalmente, esperam ter a presença masculina”, conta.

Luisana pretende estudar no Brasil para se desenvolver pessoal e profissionalmente. “Existem oportunidades para falar em nome dessas mulheres, para demostrar que sem importar religião, cultura e história, elas são capazes de enfrentar grades desafios e ter novas experiências”. Para Paula Fiuza que, diretamente dos EUA, levou um pouco de seu trabalho na Global Hope, é necessário transformar o pensamento social para tenha um olhar empático, amoroso e receptivo sobre as mulheres que estão em uma situação tão vulnerável como a do refúgio.

“Queremos que elas entendam que não só são bem-vindas, mas que estamos extremamente felizes de tê-las aqui conosco. Um evento como este abre espaço para um diálogo favorável e para caminharmos numa luta importantíssima contra um discurso extremamente preconceituoso que vêm tomando conta da nossa sociedade”, explica Paula.

A escuridão que nos faz enxergar

rodadeconversa2Aberta ao público em geral, a roda de conversa não foi exclusividade feminina. O estudante Samuel Marques Granzoti esteve no encontro como participante e contou ao Blog do Instituto Legado como foi sua experiência. “O que me chamou mais atenção foi a ironia do destino de proporcionar justo naquele dia um momento sem luz. E perceber que isso é de extrema importância para o refugiado, como pessoa em um lugar de guerra, ou refugiada para sua segurança física. Principalmente este último ponto, sendo eu um homem, e perceber que muitas vezes o meu gênero proporciona momentos escuros para mulheres”.

No início do evento, o que era para ser um problema trouxe mais realidade para a discussão. A falta de energia elétrica na região onde o Legado Socialworking está localizado fez com que o encontro fosse encaminhado à luz de velas. A jornalista Michele Bravos fez um emocionante relato sobre momento.

“(…) O escuro iluminado pelas velas nos fez lembrar das zonas de conflito em que a luz acabou faz tempo e ainda não voltou. Fomos arremessados para situações em que mulheres não se sentem seguras para ir ao banheiro, por exemplo, em um campo de refugiados, justamente pela falta de luz. Quando nos deparamos com realidades críticas, como a de mulheres que fazem do próprio corpo uma moeda de troca para sobreviver, fomos convocados a vencer a cegueira que nos paralisa de agir (…) Estejamos de olhos abertos, mesmo no escuro, para encontrarmos alternativas que ajudem o nosso olhar a ver toda essa crise que vivemos com mais nitidez”, escreveu Michele.

Fotos: Divulgação
Texto: Stephane Sena

29/06/2017|Rede, Socialworking|