Os desafios globais como acesso a água, desigualdade social, destinação adequada do lixo, exploração espacial, explosão demográfica, geração de energia, inclusão digital, manutenção dos biomas e biodiversidade, mudanças climáticas, produção de alimentos, saúde de qualidade, entre outros, requerem soluções globais, viáveis e escaláveis. Neste sentido, o desenvolvimento de inovações de base tecnológica é um fator relevante para enfrentarmos estes desafios, pois, além de agregarem conhecimento científico, podem ser replicadas e chegar a diferentes lugares.

Para que o Brasil possa contribuir ainda mais para a cadeia de impacto social no mundo, precisará formar jovens empreendedores e inovadores, e fortalecer o ecossistema de CT&I. O desenvolvimento do Sistema Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação atualmente esbarra em três problemas fundamentais: I) déficit de recursos humanos qualificados, especialmente nas áreas de ciências básicas, engenharias e demais áreas tecnológicas, II) baixa inserção científica e tecnológica no cenário internacional, e III) limitações nas relações universidade-governo-indústria (atores da Tríplice Hélice).

Dados da UNESCO mostram que o Brasil possui cerca de 700 pesquisadores para cada um milhão de habitantes. Isso é pouco se comparado com países desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, que possuem cerca de 4.000, ou a Dinamarca e Israel que possuem, respectivamente, mais de 7.000 e 8.000 pesquisadores por milhão de habitantes. De 157 pedidos de patentes internacionais em 1999, o Brasil subiu para 547 registros em 2015. Coreia do Sul e China, que estavam em situação semelhante ao Brasil no final século XX, avançaram, respectivamente, para mais de 14.000 e 29.000 pedidos de patentes internacionais. Os Estados Unidos, líderes mundiais no mercado de patentes, emitiram 57.385 pedidos em 2015.

O problema é agravado pelo o atual cenário de investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D) no Brasil, que é da ordem de 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB), enquanto a média dos países membros da OCDE é de 2,4% e Israel e Coreia investem mais de 4,0% do PIB. Esse cenário levou o Brasil para a 69ª posição no Global Innovation Index, dentre 128 países analisados. Por outro lado, as dificuldades indicam que há bastantes oportunidades. Há um número crescente de centros de excelência, institutos de pesquisa de ponta e universidades de referência. Inúmeras incubadoras, aceleradoras e parques tecnológicos estão fortalecendo iniciativas e parcerias universidade-empresa.

Nos últimos anos, diversos jovens brasileiros têm sido destaques internacionais em olimpíadas de química, matemática e física. O programa Ciência sem Fronteiras enviou mais de 100.000 estudantes e pesquisadores ao exterior. É importante também considerar o desenvolvimento de movimentos estudantis organizados e capital social pró empreendedorismo e educação, que são bases para a inovação, como Aiesec, Brasil Júnior, Brasa, Cientista Beta, Enactus, Iniciativa Emerge, Rede CsF, entre outros.

Nesse contexto, há exemplos promissores de jovens inovadores como a Kawoana Vianna, 24, que ainda no ensino médio desenvolveu um tecido de nanopartículas para evitar amputação em diabéticos; a Juliana Hoch, 23, que também no ensino médio desenvolveu um método 40% mais barato para produzir ácido lactobiônico – principal componente de líquidos de conservação de órgãos para transplantes; e o Luiz Fernando da Silva Borges, 18, que atualmente desenvolve uma interface cérebro-computador para comunicação com pessoas em estado vegetativo e coma. São jovens que certamente estão aproveitando as oportunidades e desenvolvendo ciência, tecnologia e inovação para gerar impacto social.

Por isso é preciso fomentar e fortalecer a inovação tecnológica no Brasil. Há uma emergente comunidade de jovens inovadores desenvolvendo pesquisas e tecnologias com alto potencial de impacto, que por sua vez serão cruciais para enfrentar os desafios globais. Deve ser parte da nossa missão de país identificar, apoiar e conectar esses jovens inovadores, além de reduzir lacunas de apoio às pesquisas e tecnologias para que cheguem ao mercado e à sociedade.

*Guilherme Rosso, bacharel em Ciências e Tecnologia (UFRN) e mestre em Modelagem de Sistemas Complexos (USP). Estudou nos EUA pelo programa Ciência sem Fronteiras e co-fundou a Rede CsF. Atualmente é Presidente da Iniciativa Emerge, cuja missão é fomentar e fortalecer a inovação tecnológica no Brasil, além de contribuir com o Instituto Legado.